22 de nov. de 2011

Modelo de Layout do Blog

Caros Internautas,

Estou reformulando algumas coisas aqui no Blog e gostaria de saber a sua opinião. A começar pelo modelo de layout da pagina. Vejam o que vocês acham e votem aí em cima.

Qual modelo de layout você prefere para este Blog?

Veja nas postagens abaixo os modelos que selecionei.

Abraço

Paulinho

Opção A:




Opção B:



Opção C:


Opção D:

18 de nov. de 2011

18 de Outubro: Dia do Conselheiro Tutelar

Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA
Lei Federal nº 8069/90

Título V

Do Conselho Tutelar

Capítulo I

Disposições Gerais

Art. 131. O Conselho Tutelar é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, definidos nesta Lei.

Art. 132. Em cada Município haverá, no mínimo, um Conselho Tutelar composto de cinco membros, eleitos pelos cidadãos locais para mandato de três anos, permitida uma reeleição.

Art. 132. Em cada Município haverá, no mínimo, um Conselho Tutelar composto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local para mandato de três anos, permitida uma recondução. (Redação dada pela Lei nº 8.242, de 12.10.1991)

Art. 133. Para a candidatura a membro do Conselho Tutelar, serão exigidos os seguintes requisitos:

I - reconhecida idoneidade moral;

II - idade superior a vinte e um anos;

III - residir no município.

Art. 134. Lei municipal disporá sobre local, dia e horário de funcionamento do Conselho Tutelar, inclusive quanto a eventual remuneração de seus membros.

Parágrafo único. Constará da lei orçamentária municipal previsão dos recursos necessários ao funcionamento do Conselho Tutelar.

Art. 135. O exercício efetivo da função de conselheiro constituirá serviço público relevante, estabelecerá presunção de idoneidade moral e assegurará prisão especial, em caso de crime comum, até o julgamento definitivo.

Capítulo II

Das Atribuições do Conselho

Art. 136. São atribuições do Conselho Tutelar:

I - atender as crianças e adolescentes nas hipóteses previstas nos arts. 98 e 105, aplicando as medidas previstas no art. 101, I a VII;

II - atender e aconselhar os pais ou responsável, aplicando as medidas previstas no art. 129, I a VII;

III - promover a execução de suas decisões, podendo para tanto:

a) requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança;

b) representar junto à autoridade judiciária nos casos de descumprimento injustificado de suas deliberações.

IV - encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal contra os direitos da criança ou adolescente;

V - encaminhar à autoridade judiciária os casos de sua competência;

VI - providenciar a medida estabelecida pela autoridade judiciária, dentre as previstas no art. 101, de I a VI, para o adolescente autor de ato infracional;

VII - expedir notificações;

VIII - requisitar certidões de nascimento e de óbito de criança ou adolescente quando necessário;

IX - assessorar o Poder Executivo local na elaboração da proposta orçamentária para planos e programas de atendimento dos direitos da criança e do adolescente;

X - representar, em nome da pessoa e da família, contra a violação dos direitos previstos no art. 220, § 3º, inciso II, da Constituição Federal;

XI - representar ao Ministério Público, para efeito das ações de perda ou suspensão do pátrio poder.

XI - representar ao Ministério Público para efeito das ações de perda ou suspensão do poder familiar, após esgotadas as possibilidades de manutenção da criança ou do adolescente junto à família natural. (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência

Parágrafo único. Se, no exercício de suas atribuições, o Conselho Tutelar entender necessário o afastamento do convívio familiar, comunicará incontinenti o fato ao Ministério Público, prestando-lhe informações sobre os motivos de tal entendimento e as providências tomadas para a orientação, o apoio e a promoção social da família. (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência

Art. 137. As decisões do Conselho Tutelar somente poderão ser revistas pela autoridade judiciária a pedido de quem tenha legítimo interesse.

8 de nov. de 2011

* Adolescente autor de ato infracional

Logo de manhã, iniciei o dia atendendo uma mãe, que me fez lembrar o período em que trabalhei na Obra Salesiana com adolescentes em liberdade assistida.

Bom dia! Desejei à senhora. E ela, esmorecida, respondeu será? Por favor senhora, me acompanhe, vamos conversar.

Na sala de atendimento, perguntei o que a trazia a este Conselho, no que eu poderia ajudar. A mãe, bastante fragilizada, disse que veio a procura de ajuda, pois já não sabia mais o que fazer com seu filho. Tirou de sua bolsa um calhamaço de papel, vários boletins de ocorrência envolvendo o adolescente. Um por conduzir veículo roubado, sem habilitação, outro por porte de arma de fogo, outro por tráfico de drogas e ainda um por assalto a mão armada. Entre os papéis havia uma intimação do Ministério Público para o adolescente, acompanhado de sua mãe, se apresentar em audiência com a Promotora.

A mãe tem três filhos, Bruno de 18 anos, o adolescente Douglas que está com 17 anos, sendo que completa maioridade em julho próximo e a caçula Ana Beatriz de 10 anos. Atualmente a mãe mora só com os filhos, se casou duas vezes, os dois mais velhos são filhos do primeiro marido e a caçula do segundo. Bruno trabalha, está concluindo o ensino médio, é freqüente e tem bom comportamento na escola. Ana Beatriz também está na escola, mãe não tem do que se queixar. Bruno está fora da escola a dois anos, parou na sexta série, não lê o esperado para sua idade e série, só copia de letra de forma, não sabe escrever sozinho. Quando estudava tinha muitas faltas, não respeitava os professores, não realizava as atividades escolares, não conseguia interagir com os colegas, tinha dificuldade para trabalhar em grupo. Douglas faz uso de maconha diariamente. A mãe trabalha o dia todo e não recebe ajuda dos pais de seus filhos. Perdeu o bolsa família por conta da evasão escolar de Douglas. Sua rede familiar é um tanto dispersa, não tem muito apoio sócio familiar. Frequenta um igreja evangélica no bairro onde mora, de onde vem o pouco apoio que tem.

Depois de ouvi-la longamente, passei a orientá-la sobre os procedimentos legais relacionados aos atos infracionais que seu filho tem cometido. Explicamos que não compete ao Conselho Tutelar julgar e aplicar as medidas sócio-educativas previstas no ECA. Falamos do nosso papel, como órgão de proteção e não punição. Comentamos que não podemos fazer aquilo que é papel do delegado de polícia e ou do Juiz de direito, neste caso, da Vara da Infância e Juventude. Desapontada, a mãe começou a chorar, procurei acalmá-la. Calma mãe! Ainda não terminei. Disse a ela.

Mais calma, passamos a conversar, procurando pensar juntos que atitudes tomar para ajudar seu filho. Falamos das medidas de proteção, previstas no art. 101 do ECA. Apontamos para a mãe a necessidade de entendermos seu filho, não o isentando de suas responsabilidades quanto a prática de ato infracional, mas também lembrando que ele, antes disso tudo, foi (e é) vítima do sistema cruel em que vivemos. Foi negligenciado sim por ela que é mãe, mas também por um Estado que lhe ofereceu (e não oferece) opções de lazer, cultura e esporte, de uma escola que não o entendeu, não conseguiu identificar (ou sanar) suas dificuldades na aprendizagem, etc. Enfim mostramos para a mãe que seria muito mais fácil resolver essa situação no início, mas que isso não a torna impossível. Mostramos pra ela seus erros na educação do filho e a mesma concordou. Não é fácil, aliás é muito difícil, o que não podemos é desistir. Mãe ficou de voltar a este Conselho, acompanhada de seu filho, ficou de tentar trazê-lo amigavelmente, pelo convencimento, para propormos algum tratamento de drogadição, seu retorno para a escola, etc.

Ao final do atendimento, mãe agradeceu por eu a ter ouvido e lhe entendido. Disse que todo mundo coloca a culpa em suas costas e não sabem o que ela está passando. Demonstrou estar bem mais aliviada.

O triste disso tudo é saber que o Estado irá se fazer presente na vida deste adolescente quando da medida de internação e ao sair de lá, pior estará, porque de sócio-educativa, ela não tem nada.

Paulo Roberto dos Santos - o Paulinho

Campinas, 08 de Novembro de 2011

* Por razões óbvias, o presente texto não é necessáriamente o relato do atendimento prestado. Ele traz na verdade a vivência, a experiência e as opiniões deste Conselheiro em forma de relato.

2 de nov. de 2011

O bicho


Cem me preocupar com cientificismos e um tal rigor filosófico eu gostaria de compartilhar uma situação que vivi hoje, que me fez lembrar o poema O bicho de Manuel Bandeira (Rio, 27/12/1947). Por razões óbvias não vou transcrever aqui todo o contexto que me levou aquele local.

Procurando por um grupo de irmãos em um dos bairros mais miseráveis da região que atendo (sudoeste) chegamos a um pequeno barraco, se é que assim podemos chamá-lo. Cachorros e gatos com sarna, trapos no varal, lixo por toda parte, cheiro de fezes humanas, bananeira entre o “barraco” e o córrego.

Batemos a porta insistentemente por um bom período, não tinha tranca, a porta estava quebrada ao meio, apenas encostada, silêncio e escuro lá dentro, quando já íamos desistindo, ouvi uma voz, não entendi direito o que dizia. No vão da porta avistei uma senhora, já de idade, acamada.

- Bom dia! Disse a ela.

- A senhora está bem?Perguntei.

- Precisa de alguma ajuda? Quer que eu chame um médico?

E ela respondeu que não, que estava bem, que só estava deitada, dormindo. Perguntamos por seu filho e ela nos pediu que entrássemos. Adentramos ao pequeno barraco, de um só cômodo. Deitada, coberta com uma pequena manta, numa cama... não sei bem se aquilo era uma cama... entre trapos, restos de comida, pontas de cigarro, uma espuma velha, embolorada, ... me agachei para conversar com a frágil senhora. Uma garrafa de pinga barata ao lado da cama, ela mal conseguia falar... parecendo um bicho.

Meus Deus! Era uma mulher!


Campinas, 01 de Novembro de 2011


Paulo Roberto dos Santos - o Paulinho

12 de out. de 2011

A criança e a sociedade de mercado **


“Ontem um menino que brincava me falou que hoje é semente do amanhã...”

Gonzaguinha

Em 12 de outubro se comemora o dia das crianças. A população se mobiliza para garantir o presente da meninada, vão às compras e o mercado se aquece. O mesmo se repete no natal, na páscoa, entre outras datas comemorativas. A meu ver isso revela um pouco a visão que se tem da criança na sociedade capitalista.

O jovem Estatuto da Criança e Adolescente – ECA, aprovado em julho de 1990, define crianças e adolescentes como pessoas sujeitos de direitos. Antes dele, tínhamos o Código de Menores, onde a aplicabilidade da lei se voltava apenas para os menores (crianças e adolescentes) que estivessem abandonados, em situação de pobreza, miséria, etc. Ou seja, para os pobres. O ECA traz uma visão de criança e adolescente bastante progressista, segue os princípios da Declaração Universal de Direitos Humanos. Ele universaliza a ideia de criança e adolescente, independente de sua classe social, cor, raça e religião. Os faz sujeitos e não coisas.

A família, principal núcleo de proteção da criança, se dilacerou, sobretudo aquelas constituídas na classe trabalhadora. A figura materna passa a assumir responsabilidades, antes exclusiva do pai. Pais que mal conhecem seus filhos, que trabalham o dia todo, quando chegam em casa resta a fadiga. Crianças que crescem sem ter presente no seu dia-a-dia as figuras materna e paterna. Cansados, se esquecem de olhar para suas crianças, porque perderam a esperança, deixaram de sonhar. Resta no dia 12 de outubro comprar um presente para seu filho e compensar a ausência do resto do ano.

Ainda está presente na sociedade a ideia do “menor abandonado”. A grande mídia constrói essa ideia dia-a-dia, nas colunas policiais com os filhos dos pobres, os menores, enquanto que nas peças publicitárias as crianças e adolescentes abastadas.

O mercado usa a imagem da criança para vender mais, incute valores subjetivos relacionados a criança para justificar o consumo desenfreado. Ele se apropria da ideia que se tem de criança, relaciona isso com felicidade, prosperidade, sucesso, etc. Tudo em nome do deus mercado. Consumindo, perdemos o sentido da vida, deixamos de enxergar as crianças como elas realmente são. Quando as deixamos de enxergar, deixamos de sonhar, nos distanciamos do sentido de nossas existências. A criança é a semente do amanhã!


Paulo Roberto dos Santos - Paulinho

** Texto publicado no Boletim O Gancho da Pastoral Operária de Campinas no mês de outubro de 2011



23 de set. de 2011

A violência nas escolas

Chocados, acompanhamos a cobertura do noticiário, desta vez em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, um garoto de dez anos disparou um tiro contra a professora dentro da sala de aula e em seguida, fora da sala, contra sua própria cabeça. O garoto não resistiu e veio a óbito no hospital, a professora foi socorrida e passa bem.

Se observarmos bem, notícias de violência na escola são veiculadas cotidianamente em todo país. Tragédias como essa, obviamente, são mais exploradas pela imprensa, mas elas não trazem fatos isolados. Elas mostram situações limite de uma sociedade que vive a cultura da guerra. Diariamente temos notícias, menos agudas, de violência na escola. Muitos concluem: é o bullying. Pergunto: bullying? Será?

Não acredito que problemas complexos como este se expliquem com respostas simples. O que me irrita com essa historia de bullying é o modismo que se cria em torno de uma palavra em inglês, em que poucos sabem seu significado. Acabamos colocando uma questão complexa em uma tabula raza, no nível do censo comum. A violência é um fenômeno da sociedade contemporânea estudado por diversas áreas da ciência. Não consigo aceitar a idéia de que um garoto comete algo tão extremo por se sentir renegado, discriminado. Acredito sim que isso faz parte, mas não é tudo, não explica.

Embora a palavra bullying tenha no inglês significado mais abrangente, no Brasil, quando a pronunciamos se relaciona a idéia de violência na escola perpetrada por um grupo contra a vitima. Por uma questão pedagógica e de entendimento prefiro trabalhar com a idéia de violência na escola ao invés de bullying. Permite melhor entendimento, maior abrangência do problema e expressa a nossa língua.

A violência na escola acontece de diversas maneiras, tal como acontece na sociedade. A escola não é uma bolha, ela faz parte da sociedade, reproduz valores, conhecimento, cultura e costumes tanto quanto a violência, a intolerância, a ignorância, os contra-valores. Ela não começa de um dia pro outro, numa situação extrema como esta de São Caetano do Sul.

Vivemos nessa sociedade a cultura da guerra. Ao estudar o fenômeno da violência, boa parte dos estudiosos a relacionam com as desigualdades sociais. As estatísticas apontam aumento da violência nas grandes cidades, principalmente nas periferias. O que nos parece correto, mas não o bastante para explicar o problema. O individualismo, a livre concorrência e o consumismo da sociedade contemporânea atravessam todas as classes sociais e contribui diretamente para a construção de uma cultura de guerra.

É preciso entender os processos de transformação que a sociedade passou para entendermos a que vivemos, porque somos seres históricos. O francês Renê Descartes inaugurou o pensamento racionalista na Idade Moderna com seu “cogito ergo sum”, ou seja, penso, logo existo. Na Idade Moderna o centro do mundo está no homem, o ser. Conquanto na sociedade contemporânea o centro do mundo está no ter, período da história marcado pela Revolução Francesa, a partir de onde se desenvolveu e consolidou o regime capitalista no ocidente. O capitalismo passou por alguns estágios até chegar ao atual. O mercantilismo (Séc. XVI a XVIII), o industrialismo que se iniciou em meados do Século XVIII, o keynesianismo na primeira metade do Século XX, o neoliberalismo da segunda metade no pós-guerra, e o globalizado onde se dá por instalado a sociedade do consumo. Ainda no Século XX surge a referência a sociedade da informação. Todas essas referências históricas, ainda que questionadas por algumas tendências, nos permite entender o processo de formação da sociedade que vivemos, doravante o fenômeno da violência. Do “cogito ergo sum” de Descartes no Século XVI temos hoje na internet “tenho Facebook, logo existo”, entre outras coisas, que demonstram o quão consumistas somos. A idéia do ter é imperativa ao ser nesta sociedade. As pessoas matam e se matam para ter e esse ter não necessariamente é algo concreto, na maioria das vezes ele não passa de um ideal.

Óbvio que não explica por si só a violência na escola, mas permite entender que a escola na sociedade contemporânea funciona como uma panela de pressão. Professores mal pagos, inseguros, não sendo respeitados em sua autoridade ou não sabendo exercê-la, vivendo em uma sociedade caótica, tendo que se deslocar de um extremo a outro para preencher a grade de aulas, mal preparados, estressados,... Os alunos: crianças, adolescentes e jovens de uma geração perdida, expostos ao crime organizado, sem referências familiares e institucionais, descrentes com a política, torcedores de futebol, esquecidos pelo poder público, tendo como herói o traficante do bairro, sem perspectivas de vida, sem oportunidades, sem sonhos, marginalizados, ... Os pais: na maioria mães que dão um duro danado para criar seus filhos, mal sabem ler e escrever, quiçá acompanhar o caderno do filho, que não puderam acompanhar de perto o crescimento do próprio filho, que passam mais tempo no trabalho do que no lar, ... Enfim, o que mais seria preciso para entender a violência na escola?

A violência é produto do sistema capitalista, ela reproduz a exclusão social. A escola não pode ficar alheia a tudo isso. É preciso despertar no coração embrutecido de cada um que compõe a comunidade escolar a esperança em dias melhores, reencontrar o sentido da existência, o sonho.


Paulo Roberto dos Santos
Campinas, 22 de setembro de 2011

9 de ago. de 2011

Campanha:

Depoimentos



Imagem: Candido Portinari

Na semana passada atendi uma família que me deixou bastante consternado com a situação vivida. A princípio o atendimento seria um entre tantos que recebemos de evasão escolar. Às vezes nem tão grave, apenas uma demonstração de que a escola não dá conta das suas tarefas, ou seja, não esgota seus recursos como prevê o ECA.

Como sempre fiz, desde que entrei no Conselho, iniciei o atendimento procurando primeiro entender a dinâmica familiar, antes mesmo de informar as razões pelos quais notificamos a família a comparecer no Conselho.

As pessoas quando são notificadas a comparecer no Conselho, no geral ficam apreensivas com nosso chamado. Algumas nervosas, revoltadas. Por isso procuro ser o mais tranqüilo possível, nada de postura autoritária, procuro fazer a pessoa se sentir a vontade. Acredito que com isso, tendo as pessoas desarmadas, consigo entender melhor a situação e agir com maior eficiência. Procuro trabalhar na lógica contrária ao que observo em muitos órgãos públicos, ou seja, partir sempre do pressuposto de que a família está errada. Nos atendimentos, inclusive os mais graves, parto sempre do pressuposto de que as pessoas atendidas são vítimas, foram de alguma forma injustiçadas pelo sistema, o que de maneira alguma justifica, eventualmente o erro cometido, mas nos permite entender melhor e por isso, agir de maneira mais correta. Explico sempre que necessário, não me cabe julgar, incriminar, investigar, não estou num órgão repressor, não sou autoridade policial, sou sim responsável pela proteção dos direitos da criança e do adolescente.

Numa folha de papel comecei a anotar, quantos moram na casa,quantos estudam, quantos trabalham, quantas crianças, adolescentes, etc. Neste breve levantamento conseguimos identificar uma porção de direitos violados e na maior parte o agente violador não é a família e sim o Estado.

- Quantos filhos tem o casal? Perguntei.
- Temos seis.

Respondeu o pai.

- Que seis nada, temos sete.
Retrucou a mãe.

Passamos a listar os filhos por ordem de idade. Eles mal sabiam a idade dos filhos. Quatro maiores de idade e três menores. Dos quatro filhos mais velhos, três se casaram (informalmente) e continuavam a morar com os pais, junto com seus/suas respectivos/as companheiros e filhos. Um já com dois filhos, uma gestante e um recém casado sem filhos. Entre filhos e netos eram cinco crianças no lar.
Passamos a perguntar pela renda da família, apenas o filho mais velho do casal, que ainda está solteiro, trabalhava formalmente. O pai faz bicos esporadicamente, o companheiro da filha que está gestante se encontra preso, o filho do meio também está preso, deixou uma companheira com dois filhos morando com os pais. Dos filhos mais novos (menores de idade), uma está evadida da escola, a outra vai bem, os pais não tem queixa sobre ela e a mais nova de todos está passando por acompanhamento com psiquiatra, tem leve comprometimento intelectual, está depressiva, já tentou o suicídio. E ela tem apenas dez anos.

Feito este levantamento da família explicamos o motivo pelo qual tínhamos notificado a família, ou seja, as elevadas faltas na escola e o baixo rendimento da filha mais nova, talvez o menor dos problemas na vida daquelas pessoas.

Perguntei como se mantinham. Se o salário do filho mais velho era o suficiente para o sustendo de todos. A mãe explica que complementavam com R$165,00 que recebiam do Bolsa Família, mas o benefício foi cortado por conta da evasão escolar da filha mais nova.

Perguntamos ao pai se fazia consumo de álcool a muito tempo, o cheiro já havia se exalado por toda a sala. Com lágrimas nos olhos ele disse que desde criança e nunca conseguiu deixar o vício. Lhe oferecemos ajuda e ele respondeu positivamente, com um sorriso no rosto, com olhos embaraçados, cheios de lágrimas, que nunca alguém lhe tinha oferecido ajuda antes. Só lhe imputavam a culpa por tanta desgraça numa família.

Pensei comigo, eu vou ser mais um na vida desse coitado a lhe massacrar, lhe humilhar, desprezar. Respondi pra mim mesmo que não! Não vou ser mais um! Fiz todos os encaminhamentos necessários,possíveis e inimagináveis. Dei um aperto de mão e desejei que fossem com Deus.

Paulo Roberto dos Santos
Campinas, 09 de Agosto de 2011

Palavras frias II

Notificamos a família a comparecer neste Conselho nesta data devido comunicado que recebemos da Escola Estadual Orlando Signorelli.

Genitora compareceu neste Conselho, acompanhada de seu filho, conforme tínhamos notificado. Iniciamos atendimento conversando com o adolescente sobre as razões por tantas faltas nas aulas e baixo rendimento escolar. Na seqüencia conversamos com a mãe sobre suas obrigações na escolarização do filho.

Por fim aplicamos advertência verbal, explicamos que a reincidência ensejaria em advertência por escrito e a reincidência pela terceira vez em representação na Justiça da Infância e Juventude. Os encaminhamos para a unidade escolar mediante termo de freqüência obrigatória.

...

Se a evasão escolar fosse tão fácil de se resolver assim...

Paulo Roberto dos Santos
Campinas, 09 de Agosto de 2011

Palavras frias I

A genitora compareceu neste Conselho procurando ajuda quanto a inclusão de seu filho na Cemei Dr. Manoel Alves Silva. A criança está cadastrada na lista de espera desde 10/10/2010 e não foi chamada até o presente momento. Está classificada na 93ª posição do AG1, sendo que chamaram até a 11ª colocada.

Criança vive com genitora e os avós maternos. Genitor não reconheceu paternidade e não paga pensão alimentícia. Genitora relata que trabalha como empregada doméstica, seus pais são doentes, portanto não podem cuidar da criança. A mesma não tem com quem deixar a criança e precisa trabalhar. Recebe cerca de R$ 600,00 por mês, está inserida no Bolsa Família, recebe R$ 65,00 por mês do programa. Criança é acompanhada pela Pastoral da Criança, pois está abaixo do peso. Renda familiar se complementa com a venda de material reciclável, cujo avô recolhe. Família também recebe cesta básica da igreja do bairro.

Ante o exposto, requisitamos vaga para a criança em tela e orientamos a genitora a procurar a Defensoria Pública, caso lhe negarem a vaga.

...

De tudo, a providência tomada, sobre a vaga em creche, atende a criança no menor dos problemas de sua vida já tão dura.

Paulo Roberto dos Santos
Campinas, 09 de Agosto de 2011

Os filhos de Maria Zefa


Imagem: Retrato de Maria, Candido Portinari, 1931

A guerreira Zefa tem cinco filhos: Douglas que está com 16 anos; Jeferson que tem 15 anos; Ana tem 13 anos; Carol com 6 e o mais novo Rian com 4 anos.

O pai de Douglas e Jeferson é Ribamar, ele nunca mais apareceu depois que Zefa o botou pra correr, deve de ta pulano por aí até hoje com as parte queimada. Os menino sente a falta do pai, mais Zefa nem tem como sabe dele pra pedir pensão, ele nunca deu o nome dele inteiro e não registrou os menino quando nascero.

Aninha, a filha do meio, perdeu o pai quando tinha quatro aninho, mal recorda do pai. Zefa sente a perda de Joaquim até hoje, com ele viveu os dias mais feliz de sua vida.

O casal mais novo, Carol e Rian é que tem contato com o pai, mais pra falar a verdade é melhor que num tivesse. O danado do José Pedro até hoje, mesmo sendo colocado pra fora de casa, é um estorvo na vida de Zefa, num paga pensão, quando aparece pra ver os fios é porque quer alguma coisa. Zefa, apesar de tudo o que já sofreu com o danado, com o coração bom que tem, acaba lhe ajudando, acreditando ainda que um dia ele mude de vida.

O mais velho Douglas agora tá começano a tomar juízo, tá querendo trabalhar, tem pego no pé do irmão Jeferson pra ajudar a mãe. Jeferson é mais malinoso, num sai da rua, vive atrás de pipa. Mas Douglas também já deu muito trabalho pra Zefa, chegou inclusive a se meter com coisa errada. Quanto mais Zefa lhe batia, mais ele aprontava, até que ela começo a conversar com Douglas, aconselhar e ele tem melhorado. Tá começano a entender que ele é o mais velho e precisa ajuda a mãe. Já o Jeferson é mais moleque, num deu conta ainda que tá virano home, que pipa, pião e burquinha é brincadeira de criança. Quando lhe convém quer ser adolescente, quando não, se diz criança. Vai entender a cabeça desses menino.

Já Aninha é mais ajuizada, leva os irmão mais novo pra escola todos os dias. Zefa saí pra trabalhar bem cedinho e o horário da escola num bate com os horário de Zefa. Aninha arruma os irmão, prepara as mochila e leva Carol na escola e Rian na creche. Ajuda a mãe nos afazeres de casa. É um brinco de menina, doce, carinhosa com a mãe e com os irmãos. Rian tá com um probleminha na fala, Zefa pego um encaminhamento no postinho de saúde pra passar com um fono.

Com todas as dificuldades, se percebe uma coisa, num falta da parte Maria Zefa é garra pra poder criar seus filhos.

Paulo Roberto dos Santos
Campinas, 09 de Agosto de 2011

2 de ago. de 2010

A Dona Maria



Retrato de Maria - Candido Portinari

Ali naquela viela mora dona Maria Zefa com seus cinco filhos. Ela trabalha como diarista de segunda a sábado. De segunda e quinta trabalha na casa de um bacana lá da Nova Campinas. De terça e sábado faz a faxina na casa de uma madame lá do Taquaral e de quarta e sexta na casa de duas irmãs metidas a classe média aqui dos Campos Eliseos.

Os dois filhos mais velhos são fruto do primeiro casamento de dona Maria Zefa. O cabra lhe tratava com indelicadeza, chegava em casa tinindo de bêbado e por qualquer coisa já lhe centava o tapa, até que dona Maria Zefa o colocou pra fora de casa. Deu lhe um banho de água fervendo que o danado saiu com as partes toda esfolada. Nunca mais deu as caras.

A menina do meio é fruto do relacionamento de dona Maria Zefa com um grande amor de sua vida, uma paixão esquecida. Ela estava sozinha, com dois filhos pra criar sozinha no mundo, quando reencontrou o seu Joaquim, um camarada formoso, trabalhador, que conhecera quando ainda estava no Mobral, mas na época ela tinha acabado de se casar, acabou escondendo pra si o sentimento que tivera por Joaquim. Ficaram juntos por três anos, período em que teve Ana, a filhinha do meio. Aqueles foram os anos mais felizes da vida de dona Maria Zefa, mas a viuvez lhe pegou, seu Joaquim veio a falecer de morte morrida. Deixando dona Maria Zefa com uma pensão de salário mínimo pra criar a filha.

Passaram cinco anos, dona Maria Zefa sentindo na pele a dureza da inflação, como se diz, vendendo o almoço pra comer a janta, quando aparece um outro cabra em sua vida, o José Pedro. Este sim a fez sofrer. De inicio ela num queria mais se apegar com homem nenhum, mas de tanto ele atormentar ela acabou cedendo e o levando pra dentro de casa. Teve com ele um casal, primeiro uma menina depois um menino. No início até que viveram bem, mas depois, o danado pegou a beber e começou a tratar dona Maria Zefa com mal querência. Não bastasse isso fazia diferença dos seus filhos com os três filhos mais velhos de Zefa. Mulher arretada ela, enfrentou a situação e varreu o viril de sua vida, decidida a seguir em frente, sozinha, com seus filhos. Fez uma jura que nunca mais ia se engraçar com homem nenhum.

Zefa cria seus cinco filhos, recebe apenas a pensão que o seu Joaquim lhe deixou. Se vira como pode para sustentar a gurizada. O danado do José Pedro além de num pagar a pensão alimentícia dos filhos, quando vai visitar enche a pança e saí rateando da comida que nunca está nos seu gosto. Qualquer dia Zefa acaba raiando com ele e o danado saí com uma quente e duas fervendo.

Quarqué dia desses eu comento um pouco mais com Vocêis as dificulidades que essa mulher num passa com seus filhos. Essas adolescências de hoje em dia...

Paulo Roberto dos Santos
Campinas, 03 de agosto de 2010 – 00h37

1 de ago. de 2010

A experiência de estar Conselheiro Tutelar


Sei que estou em dívida com os leitores deste espaço virtual. Ando meio enrolado com afazeres no Conselho e agora vivendo a dois, tendo de cuidar daquela que tanto me cuida, que me ouve, me acompanha e me apóia. Já disse por aqui em outro texto o quão intensa é a experiência de estar Conselheiro Tutelar. Peço desculpas aos caros leitores por deixá-los tanto tempo sem notícias por aqui. Mas também peço que entendam minha situação. Não posso dizer que seja uma fase ruim, pelo contrário, estou vivendo uma fase muito boa de minha vida, descobrindo a vida a dois, me encantando cada dia mais com a Adriana e não me tem sobrado tempo para escrever sobre a experiência de estar conselheiro tutelar. Vou escrever aqui um pouco dessa vivência.

A dinâmica de trabalho no Conselho é uma loucura, muitas pessoas passam por nossas vidas, e com cada uma delas tiramos um aprendizado. Algumas deixam conosco angustias, preocupações e estranhamentos. São muitas experiências vivenciadas, impossível partilhar todas elas aqui. Rumo ao que eu tinha me proposto, quando resolvi reativar este Blog, quero partilhar algumas situações que vivenciei no Conselho.

Logo que começamos a trabalhar atendi no Conselho uma família que me impressionou bastante. Tínhamos recebido uma denuncia anônima de que a mãe era negligente para com seus filhos. “Escassez de alimentos, higiene precária, etc” dizia o texto da denuncia. A mãe veio ao Conselho com todos os seus filhos. Ela tinha praticamente a minha idade (28 anos) e estava já gestando seu oitavo filho. Moravam todos sete filhos, a mãe e seu companheiro em uma casa de três cômodos e o banheiro.

Iniciamos o atendimento conversando primeiro com os seus três filhos mais novos. Um de dois anos, um de três e outro de quatro anos e meio. Diferença pouco maior de nove meses de um filho para o outro. Logo de início o filhinho mais novo, o menino de dois anos, verbalizou algumas palavras que confirmava a denuncia. Sentimos naquele primeiro momento certo receio por parte do irmão de quatro anos e meio com o que o irmãzinho estava dizendo. Observamos alguns olhares, um cutucar o outro, um cortar o que o outro estava dizendo, enfim, percebemos que tínhamos ali de fato uma situação de risco, com muitas evidências de violação dos direitos das crianças e adolescentes naquela família.

Em seguida conversamos com os filhos mais velhos daquela senhora, todos adolescentes. Com eles não identificamos nada de anormal. Mas ainda tínhamos ali uma situação muito suspeita. Apliquei as medidas de proteção que reza o Estatuto da Criança e Adolescente. Encaminhei relatório para a assistência social pedindo um acompanhamento estreito e sistemático daquela família. Enviei outro documento para o Centro de Saúde do bairro da família pedindo o agendamento de consultas para todas as crianças e um acompanhamento mais constante dos agentes de saúde para com aquela família. A mãe a todo momento se colocou como “coitada”, se esquivando de suas responsabilidades. Enfim, eu fiz tudo o que precisava fazer, convicto que estava fazendo a coisa certa e continuo acreditando nisso. Mas a vivência no Conselho por estes meses me fez refletir sobre situações como essa. Me lembro que apliquei uma advertência na mãe por ser negligente para com seus filhos, fui muito duro com ela, e acho que realmente que precisava ser. Mas hoje, vejo que mães como essa antes mesmo de ter seus filhos já eram vítima. Vítima do sistema, pessoa simples, que não teve a oportunidade de estudar, se profissionalizar, muito menos planejar sua vida, se casar, programar a vinda dos filhos, etc. Como exigir certas coisas dessa mãe se ela mesma não conhecia aquilo. Muitas vezes por traz de uma situação de negligencia ou até mesmo de maus tratos, temos uma questão cultural. E questões culturais não se mudam por meio de decreto-lei, muito menos com uma folha de papel, dizendo que fora advertida por isso e aquilo. A experiência me fez ver nesses meses que temos de olhar para a família não só para a circunstância colocada, mas sim para sua totalidade. Precisamos procurar conhecer e entender a sua história de vida, a dinâmica familiar, a forma como se relacionam, se estruturam, etc. É isso

Forte abraço e até logo

Paulo Roberto dos Santos

29/07/2010 – 00h40

12 de mai. de 2010

Salve Vô Benedito


13/05/2010 - 01h23
Era dia 12 de maio, fazia muito frio e eu me recuperava de um danado resfriado. Estava me ajeitando pra deitar, tomei um chá de erva cidreira bem quente, do jeito que minha mãezinha me ensinou. Esquentei uma caneca d’água , coloquei umas gotas do óleo de cânfora e inalei aquele vapor bem quente. Tudo como manda a tradição lá de casa.

Apaguei a luz, custei a dormir, estava com uma porção de coisas na cabeça, queria conversar, mas não sabia bem o que e com quem. Os pensamentos iam e vinham descompaçadamente, até que eu dormi. Então eu me peguei a sonhar.

No sonho, descobri que eu tinha um avô pretinho, da cor de um taio de café forte. Chamava-se Benedito, tinha pra lá de 100 anos, carregava um pequeno pedaço de pau, que fazia de bengala e um cachimbo com fumo, alecrim e erva doce. Andava todo curvo, se apoiando na sua bengala. Estava descalço com uma calça de pano de saco, arregaçada até as canelas e uma camisa de manga.

Vô Benedito veio em minha direção e pegou a falar. Tinha um dialeto diferente, algumas coisas eu custei a entender. Curiosamente os pensamentos descompaçados, começavam a fazer algum sentido com o que eu ouvia de Vô Benedito. Ele se sentou na beira da cama, disse que estava ali porque queria entender porque aqui na terra nós brigamos tanto para ser livres e quando alcançamos a liberdade nós mesmos nos aprisionamos em nossas próprias prisões. Falou que em seu tempo, aqui na terra, o homem negro vivia aprisionado nas senzalas e no cárcere eles viviam suas culturas, suas crenças e seus amores livremente. Explicou que tinham o espírito livre, como um pássaro, embora fossem escravos, não perderam na escravidão suas identidades, foram resistentes e criativos para preservá-las. Disse que hoje acreditamos que somos livres mas na verdade vivemos a ditadura do consumo, da ganância, do ter e assim acabamos nos perdendo, sem espírito, sem alma, sem identidade.

Perguntei ao Vô Benedito porque ele estava me falando tudo aquilo. Eu estava um pouco confuso, não sabia mais se aquilo era de fato um sonho, parecia tudo tão real. Ele me respondeu que na verdade já tinha me dito tudo aquilo, mas eu não tinha entendido, por isso os pensamentos descompaçados. Falou que já está comigo a algum tempo, que vem ao meu encontro prosear todas as noites, em meus sonhos, mas eu nunca o tinha dado ouvidos e que agora chegou a hora de eu me despertar e ouvir meu espírito.

Acordei dia 13 de maio lá pelas 10 horas, a conversa foi longa, me ajudou entender que precisamos ouvir o espírito para sermos livres e que a maior riqueza da vida está no amor. E ele é humilde e caridoso, como o Vô Benedito. Curiosamente o cheiro de pito exalava pelo quarto e a porta da casa estava aberta. O que foi isso, um sonho? Ou será que tenho um vôzinho? Um negro-velho?
Paulo Roberto dos Santos - Paulinho

6 de mai. de 2010

Debate: Diretrizes políticas para atendimento de crianças e adolescentes em situação de rua



05/05/2010 – 14h00 às 17h30


Debatedores:
Dr. Marcelo Prinsceswal (RJ)
Mestre em Políticas Públicas, Graduado em Psicologia (UERJ), Pesquisador do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI)

Sra. Aparecida Rodrigues dos Santos
Graduou-se em Serviço Social, é Especialista em Gestão Pública e Técnica do Ministério do Desenvolvimento Social – MDS


O debate foi mediado por uma Juiza da Infância de Santa Catarina, membro da ABMP, infelizmente eu não consegui tomar nota seu nome. Iniciando os trabalhos, Dr. Marcelo apresentou o Projeto de Pesquisa que está desenvolvendo no CIESPI, denominado: “Os processos de construção e implementação de políticas públicas para a criança e o adolescente em situação de rua”. A pesquisa foi desenvolvida entre a segunda metade de 2007 e a primeira de 2008 e tem como objetivo entender os processos de construção e implementação de políticas públicas para crianças e adolescentes em situação de rua.

Segundo Marcelo, para entender estes processos é fundamental entendermos o fenômeno da estruturação de crianças e adolescentes na rua e a definição que se faz , nos governos, por criança, adolescente e situação de rua.

Ele explica que o fenômeno da vivência na rua se explica não só por um fator, isolado, como se pensa. Disse que geralmente relacionam a saída da criança/adolescente de sua casa para ficar na rua com uma vivência de trabalho infantil, anterior à estruturação na rua, mas mostra, inclusive com dados estatísticos que este fenômeno se dá também por outros fatores, embora este seja um dos fatores mais recorrentes nesta população.

Marcelo conta que a pesquisa mostrou que este fator muda de cidade para cidade, nas diversas realidades do país. Que enquanto em uma cidade a maioria de crianças e adolescentes estruturados na rua declaram estar na rua por conta da violência doméstica que sofria, noutra a maioria se dá pela exploração do trabalho infantil.

Neste sentido, Marcelo sustenta que são muitos os fatores que levam uma criança/adolescente a se estruturar na rua. Ele conta que na pesquisa fizeram um levantamento, procurando relacionar estes fatores com outros indicadores sociais sobre as condições de vida destas crianças/adolescentes. Não consegui anotar todos os dados que ele passou, anotei apenas alguns indicadores, sendo eles: condições de saneamento básico inadequado; taxa de analfabetismo funcional; taxa (in)adequação entre a idade e a série da criança/adolescente na escola; crianças/adolescentes oriundas de famílias com renda per capta abaixo da linha da pobreza (Ipea: R$ 201,27 por mês ou 6,70 por dia); família sem acesso à seguridade social (o tripé: assistência, previdência e saúde); situação de vulnerabilidade social. Também acrescentou que, segundo a pesquisa as crianças vão para a rua com idade entre o 7º e 11º ano de vida.

Com pouco tempo para falar, Marcelo também fez alguns apontamentos interessantes. Falou do equivoco que se pensa ao falar do vinculo familiar de crianças e adolescentes em situação de rua. Disse que mais de 90% dos entrevistados, fazem referência à família, na sua maioria personificada na figura da mãe. Por outro lado, cerca de 81% afirmam que o pai não são de sua família. Portanto, para Marcelo não é verdade que a criança e adolescente que está na rua perdeu os vínculos familiares. Ele também falou do grande problema que nota em todo o país, quando se fala em crianças/adolescentes em situação de rua: o crack. Denuncia que as Secretárias de Saúde não estão assumindo sua responsabilidade e deixando crianças e adolescentes morrerem sem o devido tratamento.

Já nas considerações finais Marcelo falou dos resultados obtidos nas entrevistas com as crianças/adolescentes e com seus educadores sociais de rua. Verificaram algumas características nos grupos de crianças/adolescentes em situação de rua: fixam grupos pequenos, de no máximo 20, mas geralmente de 3 a 7 pessoas. Que fixam grupos por amizade, por questão segurança e sociabilidade. Apontaram, na pesquisa como desejo/projeto para suas vidas: ser respeitado; ter uma casa própria; arrumar um trabalho; ter lazer; constituir família. Marcelo disse que só conseguiremos desenvolver e implementar políticas públicas para esta população quando a entendermos bem. Disse que a criança/adolescente em situação de rua não chegou a rua do dia para noite e por isso, sua volta para casa deve respeitar um processo de educação (não formal) gradual e processual. Que não adianta querermos institucionalizar estas crianças ou mesmo levá-las de volta para a família, sem o seu consentimento, a sua vontade, elas logo na primeira oportunidade voltaram para a rua. Por fim falou que a implementação de políticas públicas nesta área, deve ser pactuada com todos os envolvidos, com a sociedade civil organizada, com o Estado, os conselho, etc. Disse que ações de truculentas, já experimentadas em vários lugares do país, não resolvem o problema. Não passam de higienização social.

Foi o que pude anotar, são só relatos, achei muito boa a exposição do Marcelo. Noutra oportunidade, tentarei desenvolver algumas linhas sobre esse assunto, procurando explicitar vivências minhas no Conselho. Aguardem!

A segunda debatedora, francamente, também teve um fala boa, mas não consegui anotar. Depois comento o que eu lembrar.

Logo, logo volto escrever mais.

Abraço

Paulinho
06/05/10 – 02h05

5 de mai. de 2010

XXIII Congresso da ABMP


Caros Amigos,

Conforme tinha prometido, estou tentando partilhar com vocês, neste blog, um pouco do que tenho vivido no Conselho Tutelar. Não me faltam assuntos para escrever, mas careço de um pouco mais de tempo para registrar tantas experiências e aprendizagens. No Conselho vivenciamos situações intensas, algumas bizarras e outras tantas trágicas. Mas também estou passando por um processo de formação muito rico, tanto pela experiência prática de enfrentar estas situações, quanto pelas discussões, pelos cursos e capacitação que passamos. Além disso, o fato de estarmos no Conselho, dia-a-dia dialogando com outros profissionais da rede de atendimento, com os próprios colegas de trabalho, faz deste serviço uma ceara de conhecimentos na área de infância e juventude.
Neste sentido, aqui estou eu escrevendo para socializar as discussões que estou participando, aqui em Brasilia/DF, no XXIII Congresso da Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça, Defensores Públicos da Infância e da Juventude - ABMP.
O XXIII Congresso da ABMP iniciou hoje, dia 5 de maio e termina sexta-feira, dia 7. O evento acontece concomitante ao I Encontro Regional da Associação Mercosul de Magistrados da Infância e da Juventude. Contamos com a presença de juizes, promotores públicos, defensores públicos, conselheiros tutelares, gestores públicos, conselheiros de direitos e pesquisadores da área de infância e juventude.
A delegação aqui presente vem de todos os Estados da Federação, da Argentina, Paraguai, Uruguai, entre outros países da América Latina.
Depois de uma longa mesa de abertura, com muitas saudações, agradecimentos, congratulações, bla, bla, bla, ... no período da manhã, à tarde fomos para as salas do Centro de Convenções, onde acontecia as mesas temáticas. Estamos aqui em quatro conselheiros tutelares de Campinas, um(a) de cada região. Organizamos-nos de maneira que cada um acompanhasse uma sala de discussão. Fiquei numa onde discutiam diretrizes políticas para atendimento de crianças e adolescentes em situação de rua. O debate foi desenvolvido por Dr. Marcelo Prinsceswal (UERJ) e Sra. Aparecida Rodrigues dos Santos, especialista em gestão pública e técnica do Ministério do Desenvolvimento Social – MDS.
Adiante, escreverei minhas observações sobre este e os demais debates que irei participar.
Força pra todos(as) e dêem me forças para cumprir como o que me propus.
Abraço

Paulinho
05/05/10 – 22h51